Por Mark Lund

Johnny Rice é uma lenda do surf californiano. Um surfista por natureza, que desce suas ondas durante a semana e trabalha “shapeando” (modelando) pranchas no quintal de casa, nos fins-de-semana. Ele tem uma frase que gosta muito: “Surfar é bom para você em quatro formas: fisicamente, mentalmente, emocionalmente e espiritualmente”.

Este “coroa” de 79  anos vem da linha indígena Santee Dakota Siouxnativo e Prairie Band Potawatomi. Seus pais cresceram em uma reserva indígena longe do oceano, em Dakota. O amor de Johnny pelo surf veio depois que chegou ao sul da Califórnia e se expôs à “cultura surf”, no final da década de 40. Este nativo de Santa Cruz/CA vive e respira o que prescreve.

Hoje, trabalhando para si próprio, Johnny – um antigo oficial da guarda costeira – faz seu horário de acordo com as condições do mar e das ondas. Além de poder viajar quando assim deseja, para outros destinos de surf. Modelar pranchas para outras pessoas é uma forma de fazê-las felizes, o que deixa Johnny realizado com o seu trabalho.

Poucos sabem, mas essa lendária pessoa de Santa Cruz, carrega consigo um pouco da história do surf brasileiro dos anos 70. Ele chegou ao Brasil em 1974, aos 36 anos, porém sua vida “surfística” começou muito antes disso. Onze anos após ter nascido, metade índio Sioux, metade Patowami, Johnny começou a surfar. A foto que registra este início, hoje integra um dos museus de surf mais importantes da Califórnia.

Como qualquer garoto apaixonado pelo surf, ele procurou viver o surf dentro e fora d’agua. A estrela de sua paixão brilhou e aos 14 anos, quando sua família se mudou para Los Angeles, ele foi convidado a aprender a “shapear” com o pai de todos os shapers: Dale Velzy. Johnny começou a trabalhar com Velzy em um surfshop em Venice Beach.

Mais tarde, em 1957, ele levou de volta para Santa Cruz o know-how adquirido com o mestre. Lá, trabalhou para os Mitchell Bros. que montaram o primeiro surfshop da cidade. Sua paixão junto com a projeção e impulso dados por Velzy mantiveram Johnny sempre bem posicionado, no pico dos anos dourados do surf californiano.

Johnny chega ao Brasil e se encanta com as ondas

Johnny presenciou a chegada do poliuretano, talvez um pouco triste em ter que dizer adeus à madeira. Mas ao manusear a nova matéria-prima sintética, ele percebeu que esta seria mais leve, mais fácil de trabalhar, mais econômica. Era, portanto, tudo que estava faltando para que um esporte de poucos, se transformasse numa moda para muitos. Ele também presenciou a chegada de uma outra matéria-prima que derrubaria a barreira da água gelada californiana, o que também afastava as multidões do surf: o neoprene (para confeccionar as roupas de borracha).

Johnny já estava ativo em Santa Cruz quando Jack O’Neill (uma das maiores marcas da moda surf) abriu em 1959. Quando a moda surf explodiu, as lentes de Hollywood descobriram a riqueza dramática e o apelo rebelde do lifestyle de Malibu, e começaram a rodar os filmes “Gidget” entre outros, Johnny também estava lá, se candidatando como figurante para fazer as cenas de surf.

Um pouco depois, no meio da década de 60, ele foi morar no Hawaii, onde trabalhou ao lado do antológico George Downing, como um dos “Beach Boys” de Waikiki. Um trabalho que o permitia ganhar seus “trocos” com o pé na areia, e passar as suas folgas surfando os melhores picos do Oahu. No final da década de 60, quando a febre californiana pelo surf diminuiu, ele foi para a Flórida. Trabalhava “shapeando” centenas de pranchas por mês, durante o “boom” do surf na costa leste, embalado a um som que o fascinava e inspirava.

Enquanto seus colegas escutavam o conjunto Beach Boys, Johnny preferia escutar Bossa nova, Tom Jobim Johnny começou a sonhar em conhecer o país que cantava assim. Muitas vezes um sonho, transformado em desejo, tendo o poder de influenciar o próprio destino. Um dia, no início dos anos 70, ele cruzou o caminho de Alan Birnbaum e Sergio Sachs, dois surfistas paulistas que o convidaram e o conveceram a arriscar a sorte shapeando no Brasil. Ele não hesitou e, sem nenhum emprego em vista, sem nenhuma garantia de nada, botou sua primeira mulher e seus filhos, Dominic, Sabrina, e Anastasia num avião.

Chegando em São Paulo com uma mão na frente e a outra na plaina. Johnny foi direto do aeroporto de Congonhas, na capital do estado, para o Guarujá (litoral do estado), e lá se instalou, criando sua base de operações para os próximos quase cinco anos, na Praia do Tombo. No litoral paulista, a época das pranchas feitas nos moldes da Glaspac já havia acabado. Quando Johnny chegou, com suas milhares de horas numa sala de shape, ele encontrou na área o trabalho visionário de figuras importantes do surf paulistano, como Homero, dos irmãos Twin, e o Thyola. Instalado ali no Tombo, ele começou a treinar ajudantes. Muita gente que comprou suas pranchas relembra até hoje o status de ter e o prazer de surfar com uma “Johnny Rice”. Muitas idéias e muita gente treinada surgiram e saíram daquela sala para influenciar o desenvolvimento do design brasileiro. Mas o seu impacto foi além.

Ele também criou uma das primeiras equipes de surf, patrocinando atletas com dinheiro saído do bolso. Um exemplo de sua contribuição foi através do seu contato com nativos do Tombo, da simplicidade daquela gente, do carisma e do entusiamo daqueles jovens surfistas. Como ele mesmo diz ainda hoje, em um português com bastante sotaque, “brasileiro gente muito boa”. Johnny ajudou a jovens humildes como “Tinguinha” que não tinha dinheiro para comprar uma prancha, a ser um reconhecido surfista brasileiro, e importante figura no cenário do surf mundial.

Um gesto original que, nas décadas seguintes, transformaria o ramo do patrocínio no principal coadjuvante da atual indústria do surf brasileiro. Anos de experiência lhe deram um olhar clínico para o talento. Assim como Tinguinha, outros nomes que ele escolheu para patrocinar, na época pouco conhecidos, e hoje destacados personagens do mundo do surf, foram Neno Matos, Neco Carbone e o atual empresário Alfio Lagnado, dono da Hang Loose, uma das maiores marcas do surf brasileiro, conhecida mundialmente.

Johnny nunca deixou de amar o Brasil

O nativo americano Johnny Rice

Talvez tenha sido a dificuldade que Johnny teve em obter um visto permanente. Talvez tenha sido o álcool (há 10 anos Johnny não bebe e nem fuma). Talvez um segredo que Johnny carregava escondido dentro de si (ele acredita que é importante preservar algumas tradições de seus ancestrais, inclusive não fala e ainda hoje não entra em detalhes sobre algumas experiências suas, vividas no passado).

Mas por um motivo ou outro, as portas foram se fechando para Johnny, e o seu tempo no Brasil foi se esgotando. Em 1978, ele deixou o país. E aí vem a parte mais bonita da história. Johnny nunca deixou de amar nosso Brasil. Muito pelo contrário: ele hoje faz questão de falar português, contar piadas brasileiras, falar achando graça do “jeitinho brasileiro”, guardar memórias em álbuns, mostrar souvenirs da sua estada no Brasil, usar com ênfase a palavra “saudade”, e de revelar um desejo tão profundo, quanto surpreendente.

O maior sonho de Johnny é obter um visto permanente morar parte do ano na sua pátria amada, o Brasil. Com tanta gente xingando, o Brasil, é maravilhoso ouvir um americano puro sangue dizer que ama muito esse país e sua gente. Hoje, depois de ter vivido no Brasil, depois de ter vencido 2 vícios, depois de mais de 50 anos de surf e salas de shape, Johnny Rice, conhecido na sua tribo com Mni Akan Mani (Anda n’água), é um homem resolvido, que achou algo muito importante.

Ele se achou, e conseguiu criar uma vida, aos 79 anos anos, que consiste em fazer seus surfboards quando assim deseja, surfar ao lado de sua atual esposa e companheira, Rosemarie (com quem surfava nos tempos de colegial). Curtir e contribuir para o astral de uma das cidades mais tradicionais do surf, morando em uma casinha que se parece mais a um pequeno museu de surf, com pranchas de todos os tipos e tamanhos, tapetes coloridos, pinturas a óleo de favoritos “points” de surf e antigas fotografias de velhos amigos surfistas.

Johnny ainda não está cansado de fazer surfboard, ele realmente sente prazer no que faz. Morando nessa casinha há mais de 30 anos, e que fica a pouco mais de 100 metros de um dos picos mais famosos da Califórnia, levando a vida que leva, o que será que Johnny ainda quer? Conseguir um visto de permanência no Brasil, comprar uma casa na frente de alguma praia do Nordeste Brasileiro, levar uma vida simples com sua Rosemarie e um dia poder dizer: “Sou Brasileiro!“.

 

*Atualização: Johnny Rice, um conhecido shaper de prancha de surf de Santa Cruz, cuja carreira itinerante começou em 1950, morreu de pneumonia em julho de 2015, aos 77 anos.

**Mark Lund (autor deste texto) é mais um desses americanos apaixonados pelo Brasil, vivendo a mais de 30 anos na praia de Maresias/SP. Promotor de eventos e campeonatos profissionais de surf e dono do bar Legends.

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