O cineasta Toni Venturi

As empresas de comunicação devem se apropriar da estética cinematográfica para fazer seus programas audiovisuais? As linguagens estão convergindo? Aqui nesse artigo vamos lembrar um diálogo televisivo sobre o tema, dentro do programa “Diálogos EBC”,  da Rede Brasil de Comunicação (EBC), que foi ao ar em Setembro de 2016.

O programa trouxe a contribuição do cineasta Toni Venturi, da diretora de arte Ana Rita Bueno, do diretor de produção da EBC, Rogério Brandão, e da jornalista Bianca Vasconcellos, editora e diretora do programa “Caminhos da Reportagem”, da TV Brasil. Os respectivos profissionais falaram sobre o atual cenário e fizeram uma previsão para o mercado que achamos interessante expor aos leitores da Soul Brasil.

À frente da produção da EBC, Brandão acredita que a TV se tornou parceira estratégica do cinema e que a mídia passa a “contratar” os talentos que antes não tinha, como o olhar do diretor, a qualidade do roteirista e a direção de arte. “Hoje, a sociedade é do espetáculo, do audiovisual. Se não tiver investimento, nada acontece. Essa é a verdade da produção”, explicou na ocasião.

Em 2010, com o investimento de R$250 mil do Ministério da Cultura, o Brasil produziu séries nacionais e o diretor vê com bons olhos a experiência. “Tivemos 240 inscrições e, no final, selecionamos quatro séries para serem de fato produzidas. Fizemos, por exemplo, ‘Natália’ e a ‘Vida de Estagiário’, que hoje é feita pelo Warner Bros, nos EUA. O projeto teve muito valor e o mercado internacional já estava de olho no nosso potencial”, adicionou Brandão. Ela ainda acrescentou que o caminho está na produção de séries e que isso se trata de avanço em relação à dramaturgia das novelas.

Sobre o investimento percebido pelo diretor da EBC, o cineasta Venturi concordou dizendo que as TVs estão investindo em arte, fotografia, roteiro e dramaturgia. “Estamos num momento de convergência de mídias. O cinema precisa ficar bastante atento, pois a TV já tem comunicação poderosa e começa a ter papel importante na qualidade audiovisual. Se analisarmos as séries, podemos falar que se trata de cinema na TV”. Venturi ainda comentou que a televisão aberta foi buscar no cinema a ampliação de seus produtos e concorda com Brandão em relação ao dinheiro destinado à aposta. “Não tem segredo! Se não houver investimento forte de recursos, não tem qualidade, nem milagre”, disse Venturi.

A jornalista e diretora do programa “Caminhos da Reportagem”, Bianca Vasconcellos, que se viu no desafio de deixar as matérias de dois minutos para produzir reportagens de quase uma hora de duração, salientou: “Precisamos mudar o formato tradicional, que geralmente tem off e passagens. Fomos construindo e deu certo. Nosso conteúdo tem estética parecida com o cinema, mas sempre priorizando a informação, afinal estamos falando de jornalismo e não ficção. O que podemos perceber é que a narrativa ficou mais sedutora e fluída. Estamos fazendo jornalismo, mas com o máximo de bossa possível”.

Já a diretora de arte Ana Rita Bueno comentou que, neste momento, todas as áreas estão se encontrando e que uma vai se apropriar da linguagem da outra. “As linguagens e estéticas se misturam. Não é só a TV que busca o cinema, o contrário também é verdadeiro. Mas, claro, cada produção tem sua estrutura. O diretor de arte na TV é bem diferente do de cinema”.

O interessante programa também abordou o tema sobre investimento em produção nacional e a formação de uma respectiva audiência. “Fora a TV Brasil e a Globo, as outras quatro emissoras não passam sequer um filme nacional durante todo o ano. Isso, a meu ver, é crime e lesa a pátria. Não vemos filmes falados na nossa língua”, disse o cineasta Venturi. Para o cineasta, deveria haver mais espaço nos canais abertos, mas pondera que esse modelo só funciona num esquema de parceria. “Se amanhã existir uma lei que obrigue cada emissora veicular um filme de longa-metragem nacional por mês, não teríamos produção para atender a demanda, pois seriam 12 filmes por emissora X 6 canais, dando um total de 72 longas. O Brasil não produz 72 ficções por ano”, lamentou.

O diretor de produção da EBC, Rogério Brandão acrescentou um detalhe muito importante ao debate, dizendo que se a ideia das empresas é formar um diálogo com o público, é preciso se preocupar com a infância. “A programação infantil é essencial e estratégica. As crianças de hoje são os adolescentes de amanhã e se você implementar uma boa estratégia cultural isso vai render no futuro. Tem que priorizar a infância, pois não se muda o hábito do adulto”, disse com sabedoria, o diretor Brandão.

No que se refere à programação, o cineasta Venturi explicou que a TV aberta, de uma forma geral, tem uma boa quantidade de programas de baixa qualidade e de nível cultural bastante questionável. “É uma questão complexa e que poderia ser mais debatida. Para darmos esse pulo na qualidade, precisamos de parceria entre as mídias, mas esse tipo de conteúdo tem que contar com a demanda da sociedade. É uma parceria que vai fazer a gente mudar de patamar”, completou o cineasta.

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