Por Duval B. Guimarães

Atualmente as expectativas dos brasileiros que vivem nos Estados Unidos são muitas. De várias origens, eles chegam aos Estados Unidos anualmente e suas expectativas variam cada vez mais. Muitos continuam com o objetivo de ter um emprego e economizar dinheiro, mas muitos outros querem aprender inglês, adquirir conhecimento, se divertir, encontrar seu verdadeiro “eu” ou até mesmo encontrar um lugar para viver feliz para sempre são prioridades na lista de expectativas.

Desde os anos oitenta, um número considerável de pessoas deixaram o Brasil para não voltar mais. Aproximadamente 1.250.000 (um milhão e duzentos e cinquenta mil) brasileiros deixaram o país entre 1985 e 1988. Especialistas afirmam que pelo menos 1,6 milhões dos aproximados 165 milhões de brasileiros deixaram o país desde então. Dentre eles, pelo menos 1 milhão estão nos Estados Unidos. As maiores concentrações de brasileiros nos Estados Unidos vivem nas áreas da Grande Boston, Nova Iorque, Miami, e Nova Jersey, sendo que menores concentrações se encontram em diferentes cidades de Connecticut, Califórnia e Washington.

Quando eles começaram a chegar? Quem são eles? Por que deixaram o Brasil? Por que os Estados Unidos? Como chegaram aqui? Como eles assimilam a cultura? O que eles fazem aqui? Há diferenças entre as distintas concentrações de brasileiros nos Estados Unidos, e quais seriam elas? Eles pretendem voltar? O que eles esperam do país? Como são vistos pelos Norte Americanos? As respostas para estas perguntas levam a uma melhor compreensão dos brasileiros que vivem nos Estados Unidos.

Como já foi dito, o inicio da imigração em massa de brasileiros para a América do Norte se deu em meados dos anos oitenta. Naquela época, a população brasileira começou a sofrer as consequências da forte depressão econômica que ocorreu no país entre o fim dos anos setenta e inicio dos anos oitenta. O Brasil passava por uma grande mudança de sistema político na qual o sistema de governo democrático substituía o militarismo que esteve no poder desde meados dos anos sessenta. Ao assumir o poder, o novo grupo governamental encontrou muitas dificuldades, levando a forte depressão econômica mencionada.

Maxine Margolis, uma professora de Antropologia da Universidade da Florida afirma que “incerteza econômica, baixos salários, falta de oportunidades de emprego, e um alto custo de vida,” influenciaram muitos brasileiros a deixar o país. Como os Estados Unidos era visto como o país das “oportunidades,” os brasileiros encontraram aqui uma chance de escapar do momento de incerteza que eles viviam no Brasil e muitos decidiram vir tentar suas vidas em um país de “Primeiro Mundo.” Como a economia continuou incerta, os brasileiros continuaram vindo para os Estados Unidos no decorrer daquela década e durante os anos noventa.

É importante afirmar que houve uma melhora na economia do Brasil durante meados dos anos noventa. Segundo Maxine Margolis, o plano econômico estabelecido por Fernando Henrique Cardoso, ao assumir a presidência em 1995, parece não ter diminuído a motivação dos brasileiros de deixar o país, tampouco motivou aqueles que já haviam emigrado a retornar.

É difícil descrever um perfil típico dos imigrantes brasileiros nos Estados Unidos. De acordo com Ana Cristina Braga Martes, professora de Sociologia da Fundação Getúlio Vargas que realizou uma pesquisa sobre imigração brasileira na região da Grande Boston, não há um perfil típico dos brasileiros que vivem ali. Através de sua pesquisa, ela conclui que a idade dos brasileiros se concentra entre 21 e 34 anos, mas que ainda assim não há semelhanças suficientes entre eles de forma que seja possível descrevê-los em apenas um perfil.

A Grande Boston foi uma das primeiras a concentrar brasileiros. A variação de características e origens encontrada por Braga Martes se deve ao aumento do número de imigrantes que vieram para os Estados Unidos nas duas últimas décadas com motivos e expectativas variadas. Em cidades onde há atualmente uma grande concentração de brasileiros há grupos cada vez mais distintos entre si. Alguns já vivem na região por muito tempo e já formaram suas famílias, enquanto outros vieram para estudar, trabalhar, ou até mesmo atrás de seus amigos ou parentes.

Considerando que as razões para migrar normalmente são semelhantes entre certos grupos de emigrantes, quando temos razões diferentes podemos dizer que temos diferentes grupos, e, consequentemente, diversidade. Esta diversidade se refere à origem dos brasileiros no Brasil, ao nível educacional, o estado civil, e às suas intenções quando decidiram migrar para este país.

Diferentemente das grandes concentrações, talvez seja possível descrever um perfil típico dos imigrantes brasileiros das pequenas concentrações. Em minha experiência pessoal como um estudante na Califórnia, observei que a maioria dos brasileiros que vivem aqui aparenta ter características e origens similares. Estas semelhanças são notáveis especialmente em cidades que oferecem escolas de inglês como segunda língua e faculdades comunitárias, como Santa Bárbara, Santa Mônica, e San Diego. Este grupo de brasileiros normalmente vem de cidades mais desenvolvidas do Brasil, como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Florianópolis, e Porto Alegre. Eles normalmente têm entre 17 e 28 anos de idade, e são de famílias de classe social média-alta e alta. A maioria deles vem com a intenção de estudar inglês por alguns meses, ou semestres, e acaba decidindo ficar mais que o planejado para “melhorar o inglês,” como diz a maioria para justificar a extensão da estadia.

Ao decidir ficar além do planejado, o custo de vida aumenta até mesmo para aqueles da alta classe social. Isto se deve, entre outras coisas, ao fato de o Real, moeda brasileira, ser consideravelmente depreciado em comparação com o dólar. Consequentemente, esses brasileiros precisam encontrar alguma fonte de renda aqui, e começam a procurar trabalho como todos os demais imigrantes. Eles normalmente trabalham em restaurantes (como ajudantes de garçom, recepcionistas, ou garçons), como babás, manobristas de estacionamento, entregadores de pizza, entre outras funções menos desejadas pela classe trabalhadora americana. Aqueles que já aprenderam ao menos o básico da língua inglesa tendem a conseguir empregos com salários mais altos. A maioria dos “Brasileiros-Californianos” retorna ao Brasil depois de 3, 4, ou 5 anos, mas antes eles exploram as ondas, montanhas, ótimos shows, festas e outras atrações e diversões deste estado maravilhoso.

As oportunidades nos Estados Unidos atraem os brasileiros da mesma forma que os muitos outros. As pessoas normalmente pensam em dinheiro, experiência, conhecimento e diversão quando cogitam migrar para aqui. Depois dos atentados de 11 de setembro, porém, a obtenção de visto americano se tornou muito difícil para muitos, incluindo os Brasileiros. Não era tão difícil conseguir visto americano até 1998, quando o numero de vistos concedidos começou a decrescer, e diminuiu ainda mais depois de 2001– é o que afirma Franklin Goza, um professor do Departamento de Sociologia da Bowling Green State University de Ohio. Ainda segundo Goza, “o número de cidadãos brasileiros que entraram nos Estados Unidos com um visto de não-imigrante cresceu quase que continuamente nos últimos 15 anos, até que passou a decrescer depois de 1998.” Os brasileiros costumavam vir com vistos de não-imigrantes, mas desde que as coisas se tornaram mais difíceis, depois de tentar por duas ou três vezes e não conseguir, eles muitas vezes cruzam as fronteiras do México e Canadá.

Curiosamente, em um vôo de Boston para Los Angeles em abril de 2004, conheci dois brasileiros que “trabalhavam” para uma “empresa” que eles ironicamente chamaram de “Coyote Turismo.” Suas funções eram de transportar os Brasileiros que haviam cruzado a fronteira do México (em vans com 15 a 18 passageiros normalmente) para seus destinos nos Estados Unidos, e que na maioria das vezes era Boston ou Nova Iorque. Eles disseram que a concorrência por tais clientes é difícil, pois apesar de existir o risco de ser pego pela imigração, o lucro “por cabeça” fazia valer à pena. Eles afirmaram também que aproximadamente 200 brasileiros cruzam a fronteira do México todo mês, e que os “clientes” pagam algo em torno de $10.000 dólares para serem levados do Brasil ao seu destino final nos Estados Unidos.

A maneira como os brasileiros assimilam a cultura deste país depende principalmente de seu nível de inglês. Para entender como se dá o processo de assimilação é necessário pensar nas grandes concentrações a partir das pequenas. A assimilação da cultura em grandes concentrações parece ser mais difícil por já existir muitas opções que oferecem aos brasileiros a oportunidade de viver de acordo com seu próprio estilo de vida. Na região da Grande Boston, por exemplo, há várias lojas brasileiras, supermercados, restaurantes, jornais, entre outros tantos negócios brasileiros, além de sempre haver também um funcionário brasileiro ou intérprete em hospitais ou instituições do governo, como o DMV (departamento de veículos).

A maioria dos Brasileiros que migram para esta região já conhecia algum outro imigrante vivendo ali (migração por elo), o que facilita a chegada, mas dificulta na assimilação da cultura americana. No artigo “Informações Sobre Imigração Brasileira,” Francesco Neves, que realizou um estudo sobre a vida dos brasileiros que vivem em Nova Iorque, afirma que muitos deles moram em guetos, sobrevivem com empregos triviais, e jamais aprendem a falar inglês corretamente. Apesar de estar parcialmente correto, é importante não generalizar esta ideia, pois muitos se importam sim em aprender a língua e a cultura antes de decidirem trabalhar e economizar “money”.

O tipo de emprego que os brasileiros conseguem na América do Norte depende de quanto eles assimilaram a cultura, ou mais especificamente, a língua. Os que assimilam bem são mais propícios a conseguir empregos mais qualificados enquanto aqueles que ainda não o fizeram são normalmente contratados para empregos mais pesados como construções em geral, serviços de limpeza, jardinagem, ou entrega de pizzas ou jornais.

A maioria dos brasileiros que vivia nos Estados Unidos em 1996 disse que “não sabiam quando” ou “não pretendiam” retornar ao Brasil, segundo dados da pesquisa realizada por Braga Martes naquele ano. Os resultados da pesquisa mostram que há grandes expectativas de voltar a viver no Brasil, mas essa percepção geral é diferenciada pelo menos com os 15% que declararam não pretender retornar. Muitos daqueles que decidem não voltar devem estar satisfeitos com o estilo de vida que possuem aqui, ou devem estar cientes das dificuldades que eles encontrariam caso tentassem suas vidas novamente no Brasil.

Perguntas como “Se fala espanhol no Brasil?” e “Você fala Brasileiro?” são vez por outra ouvidas dos americanos. Tais perguntas deixam muitos brasileiros irritados devido ao senso de união que possuem em relação aos outros povos latino-americanos. É fato que os imigrantes brasileiros são poucos se comparados aos muitos outros grupos de imigrantes que existem aqui, mas é “o forte senso de orgulho cultural e união que diferencia os brasileiros dos ‘hispano-falantes’”, como descreve Margolis.

Como a tendência é que os brasileiros continuem migrando para os Estados Unidos, a diversidade entre eles também deve aumentar. Quando as regiões de grande concentração se tornarem “superpopulosas” de brasileiros, estes provavelmente irão se espalhar pelos EUA em direção a áreas de menor concentração. Ao visitar região da Grande Boston, muitos imigrantes me perguntaram sobre a possibilidade de se conseguir trabalho na Califórnia. Muitos deles mostraram interesse em deixar a região especialmente porque não estava mais sendo fácil encontrar empregos por ali. Ainda assim, eles pareciam estar dispostos a se mudar dali somente se estivesse certos de que encontrariam empregos melhores, e outros brasileiros em seu destino.

* Duval Guimarães é um brasileiro que viveu em Santa Bárbara, Califórnia, por três anos e que atualmente estuda Relações Internacionais na American University, em Washington D.C. Guimarães gostaria de agradecer à sua professora Cynthia Davis pelo incentivo e apoio, Ana Cristina Braga Martes pela colaboração com este trabalho ao enviar seus dois livros relacionados a este tema diretamente do Brasil, e também seus parentes por receberem-no em Boston, onde Guimarães pode explorar a vida social dos brasileiros que vivem ali.

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