Por Kátia Moraes

Eu acho que um dos sentimentos mais esquisitos dessa vida é aquele que sentimos quando temos que aceitar que alguém que amamos muito está pra morrer. Eu me sentiria muito egoísta se tivesse desejado que minha mãe ficasse viva por mais um dia. Aquilo não era vida, aquilo era penúria. Pensei sobre isso na minha viagem pro Oregon.

O Oregon é o único estado dos Estados Unidos que permite legalmente que uma pessoa escolha a morte e tenha assistência médica pra isso. Eu não sei se minha mãe teria decidido fazer isso. Ela era muito católica e teria que passar por cima de muito tabu antes de escolher o suicídio. Também me lembrei disso tudo porque a mãe da minha tia acabou de morrer de câncer. Ela me disse muita coisa que eu havia dito há vinte anos atrás. Nós falamos sobre o nosso amor por elas, de como as alimentamos, demos banho, e nos comunicamos através de poucas palavras ou mesmo através de um olhar. É uma experiência dolorosa e ao mesmo tempo enriquecedora.

Me lembro quando ela deu o último suspiro e descansou. Eu me ajoelhei na porta do quarto e olhei pro teto. Estava triste e aliviada. E aquela sensação pra mim era muito estranha. Me senti muito melhor quando ela faleceu. Eu perdi a noção de tempo nas últimas semanas. Um dia era igual ao outro. E foi muito duro assistir o definhamento. Foram mais ou menos nove anos de sofrimento. Queria que ela tivesse morrido num acidente de carro ou algo assim. Rápido e indolor.

Eu lembro de ter visto os músculos dela relaxarem. Anos mais tarde eu compreendi o que era “corpo morto” na minha primeira aula de yoga. Eu também entendi como é difícil de encarar um corpo macilento. Meu pai pagou alguém pra encher o caixão de rosas (o nome dela era Rosa). Eu dei muita risada nervosa quando a vi sufocada entre tantas flores. E é claro que meu pai ficou zangado comigo. Eu fiquei muito tempo sem poder ver na TV aquelas pessoas passando fome na Etiópia. Sempre acabava chorando.

Eu sei que esse assunto pode ser bem desagradável pra maioria das pessoas mas a minha intenção é a de fazer um comentário sobre um fato normal da vida. Porque quando a gente fala a respeito disso, o clima de morbidez começa a desaparecer. E quando isso acontece, nós começamos a sentir que a vida é um milagre e que vai além do corpo, da política e das mesquinharias desse mundo. Eu perdi um grande amigo dois anos depois da morte da minha mãe. Eu estava numa janela com um outro amigo quando recebemos a notícia.

Daquela janela dava pra ver um rio. Ficamos ali olhando pro rio em silêncio durante algum tempo. Aí de repente ele olhou pra mim e disse: “A vida é que nem esse rio, nunca pára.” Quando cheguei em casa eu achei um livro que minha mãe gostava muito. O título do livro era: “Não apresse o rio, ele corre sozinho”.

Em homenagem a Almir Chediak, Nina Simone, Barry White, Compay Segundo e Celia Cruz. Que Deus os abençoe!