Por Laís Oliveira

Com robôs substituindo humanos num mercado tão competitivo, profissões conhecidas desaparecendo e outras novas sendo criadas, e novas tecnologias sendo desenvolvidas em série, uma das áreas mais impactadas pelas transformações no mercado de trabalho já está sendo a educação. Da faculdade aos cursos de especialização, dos treinamentos corporativos aos MBAs, a forma como adquirimos conhecimento já está mudando em vários lugares ao redor do mundo.

Enquanto as universidades federais e estaduais brasileiras usam a nota do vestibular (Enem) para determinar quem entra e quem fica de fora, as instituições dos EUA consideram o SAT Score (um número que vai se acumulando desde que você entra na escola ainda criança até o último ano do segundo grau ou High School) e uma série de outros fatores como atividades extracurriculares e até mesmo voluntariado.

Mas um fator pesa sobre essa diferença: o custo para adquirir ensino superior nos dois países. No Brasil, institutos e universidades federais, bem como as estaduais, oferecem todos os cursos inteiramente gratuitos para os alunos que conseguirem vencer a acirrada disputa do vestibular. Sem pagar nem um real, exceto por seus custos pessoais para se deslocar e ter materiais extras de aula, um aluno se forma em pelo menos quatro anos de curso e está pronto para o mercado de trabalho.

Já nos Estados Unidos, cursar uma universidade é mais caro que a maioria de todos os países mundo afora. Uma matrícula anual pode custar até US$ 80 mil em algumas universidades privadas dependendo do curso. Isso sem contar acomodação, alimentação e material didático. A média, no entanto, está em torno de US$50 mil. Já em uma Universidade do Estado, como a UCLA da Califórnia, localizada em Los Angeles, um residente legal do estado pode estudar por uma média de US $35 mil. Já um estudante, residente legal de outro estado (Arizona, por exemplo) tem que pagar, em média, US15 mil a mais pelo mesmo curso na UCLA. Em resumo, numa universidade estadual norte-americana o residente daquele estado tem a preferência e paga menos.

Apesar de haver opções para quem não tem condições financeiras como bolsas estudantis e empréstimos do governo do Tio Sam (que se deve começar a pagar 6 meses depois de se formar) com exceção de uma bolsa de estudo em 100%, o estudante já sai da universidade com uma dívida altíssima no final dos quatro anos tradicionais, o que dificulta a estabilização financeira nos primeiros dez anos de sua carreira.

Para muitos americanos e residentes legais vivendo nos EUA, uma das táticas mais conhecidas (e usada, por exemplo, pelo ex-presidente Obama) é, logo após o High School, entrar para um Community College (como o Santa Monica ou Glandale College na área de L.A) onde o residente legal pode fazer diversos cursos de um, dois  e três anos e aproveitar várias cadeiras que podem ser utilizadas de crédito em uma universidade. Ou seja, em um Community College esse estudante vai pagar em média U$200 por semestre, adquirir educação e ainda aproveitar várias cadeiras quando se transferir para uma universidade economizando, assim, milhares de dólares e terminando a universidade em menos tempo, dois ou três anos.

Apesar da economia considerável que pode ser feita com algumas táticas, os custos de uma universidade são altíssimos. O acesso à educação superior no país está afastando alunos menos desfavorecidos e novas soluções estão surgindo no mercado. Uma nova tendência surgiu como alternativa, então:  com investimentos de terceiros, muitas pessoas estão substituindo o canudo e quatro anos dentro de uma universidade (ou mais tempo se for em um Community College) por cursos práticos com duração de até um ano. Essa nova tendência dá a quase certeza de um emprego ao concluir o curso, e melhor, sem custo inicial.

O mercado de trabalho está entrando numa era que muitos especialistas chamam de hiperespecialização, a qual requer conhecimento técnico aprofundado em áreas muito específicas. Com essa nova demanda de conhecimento, muitas vezes a necessidade de um curso de quatro a seis anos numa universidade para conseguir um diploma e status cai por terra e dá lugar a cursos rápidos, ligados à tecnologia, totalmente conectados com a nova realidade do mercado de trabalho e o melhor, sem se preocupar em pagar altos custos após a conclusão.

Esta tendência de ensino tem atraído milhares de jovens nos Estados Unidos de idades a partir de 18 anos. Uma das vantagens oferecidas é o fato de o aluno só precisar pagar depois de concluir o curso e muitas instituições ainda estendem esse prazo para que o aluno só precise pagar ao conseguir um emprego em sua área de formação que o dê de salário no mínimo US$50 mil anuais. Com esta opção, o aluno se compromete a pagar 15% do que receber em seu novo emprego durante os três primeiros anos à escola.

Com esta plataforma de ensino, as escolas investem no corpo discente para ter retorno financeiro depois, uma forma que pode revolucionar a educação superior nos próximos anos e ainda promete inclusão e justa competição no mercado.

Na Califórnia, a Holberton School optou por esta nova forma de ensino voltada à praticidade. A instituição foca em seus alunos de forma comprometida com a nova realidade na qual estão inseridos e, ao mesmo tempo em que permanecem focados em desenvolver habilidades digitais, o corpo docente também adiciona à “grade curricular” um punhado de cursos de educação geral – em áreas como resolução de problemas e trabalho em equipe.

A Praxis, uma escola digital de cinco anos localizada na Carolina do Sul, já empregou diversos alunos em empresas conhecidas do mundo digital. A instituição fornece em sua grade uma série de habilidades digitais e sociais – como comunicações, por seis meses antes de encaminhá-los como aprendizes em uma empresa iniciante, principalmente em tecnologia. O programa custa US $ 11.000 e é projetado para ser coberto pelos salários ganhos durante o aprendizado. Apenas 11% dos alunos da Praxis que se candidatam são aceitos e cerca de 200 estudantes se formam. Quase todos encontraram empregos depois, de acordo com um dos fundadores da instituição, Isaac Morehouse.

Já a Mission U, na Califórnia, cujo slogan afirma “educação para o século 21”, vai além: a maioria das aulas é online e os alunos se reúnem em média uma vez por semana. Cerca de metade do corpo discente é composto por universitários tradicionais, os demais são mais velhos. Os estudantes não pagam nada adiantado. Depois de se formarem e terem encontrado um emprego pagando pelo menos US $ 50.000, encaminham 15% de sua renda por três anos à instituição.

As transformações sociais causadas pelo rápido desenvolvimento da tecnologia têm impactado a educação superior. As instituições que não quiserem perder dinheiro na era digital precisam reformular seu modelo de ensino e acompanhar as novas tendências. Será que a necessidade de diploma está realmente chegando ao fim? Só saberemos nas próximas décadas, mas com as novas propostas inclusivas, certamente muitos que nem sonhavam em ter ensino superior e um bom emprego, agora terão um maior leque de opções e chances similares aos demais.

Se você está mora nos Estados Unidos, ou mesmo no Brasil, e pretende entrar numa universidade, confira neste artigo um guia rápido com as etapas necessárias para ser aceito numa instituição norte-americana.