Por Laís Oliveira

A história de Barretos, no interior de São Paulo, se confunde com o rodeio brasileiro. Até 1955, o local ainda era uma pacata cidade que tinha na pecuária sua principal atividade econômica. Passagem obrigatória dos “corredores boiadeiros”, como eram conhecidas as vias de transporte de gado entre um estado e outro, a cidade se tornaria, algumas décadas depois, palco da maior festa de rodeio da América Latina.

Numa cidade pequena e sem lazer e atrações locais, os peões das comitivas, quando se reuniam para descansar entre as viagens, acabavam criando mil maneiras para se divertir e passar o tempo. E como não podia deixar de ser, nestes encontros tentavam mostrar suas habilidades ao lidar com o gado e montando animais.

Em 1947, na quermesse realizada pela Prefeitura Municipal de Barretos, na praça central da cidade, acontecia o primeiro rodeio do Brasil, realizado dentro de um cercado com arquibancadas. Mas a necessidade de ampliar a festa e transformá-la numa atração nacional fez com que alguns jovens locais sonhassem alto.

E foi assim que, em 1955, em uma mesa de bar, um grupo de rapazes autodenominados “Os Independentes”, ligados à agropecuária local, teve a ideia de promover festas inspiradas na cultura do interior e das fazendas, com o objetivo de arrecadar fundos para as entidades assistenciais da região.

Um ano depois, em 1956, foi lançada a Festa do Peão de Boiadeiro de Barretos sob a lona de um velho circo. A partir deste ano, sempre no mês de agosto, as festas passaram a fazer parte do calendário oficial de festividades da cidade, e a mobilizar adesões nos municípios vizinhos.

O que ninguém poderia imaginar era que a partir daquele ano a história dos peões de boiadeiro mudaria para sempre e que o destino de Barretos seria se tornar a capital do rodeio brasileiro concentrando o maior evento da área na América Latina. Tudo que ali era realizado servia como modelo para outras cidades que também começavam a promover suas festas.

E o sucesso do evento foi além. Na série documental da Netflix “Fearless”, Barretos é definida como a “meca dos rodeios”. E não há como negar que a Festa do Peão de Boiadeiro se tornou um marco no mundo country e mudou as referências de todo brasileiros que desconhecia a cultura e tradições do interior do país.

Desde a sua primeira edição, em 1956, o local do evento vem se modificando e ampliando sua estrutura.  O parque foi reformado e atualmente tem estacionamento para 15 mil veículos, ganhou novos jardins, uma área de camping para famílias e mais um conjunto de camarotes em alvenaria. A área conta ainda com parque de diversões, museu, zoológico, delegacia de polícia, posto de enfermagem, clínica odontológica, mercearia e até farmácia.

A Festa do Peão de Barretos

No Brasil, o rodeio é um sincretismo do esporte importado dos EUA na década de 1950. Esta última versão do rodeio que hoje convive com a vaquejada – um jogo tradicional praticado desde o século XVI em todo o país – consiste em montar touros e cavalos não domados, com o cavaleiro permanecendo no mínimo oito segundos na montaria segurando apenas com uma das mãos, e se apoiando em uma corda, presa ao animal.

Porém o rodeio assumiu uma postura de festa associando-se a disputas artísticas, jogos de futebol, desfiles, danças, músicas e comidas típicas, segundo a cultura de Barretos, considerada, atualmente a capital da pecuária nacional pelos grandiosos números que movimenta anualmente, em agosto, quando ocorre a Festa do Peão de Barretos.

Os números são grandiosos. Anualmente são esperadas cerca de um milhão de pessoas de todos os lugares do Brasil e de outros países durante os 11 dias de festa, que conta com mais de 100 shows e montarias. O parque possui 2 milhões m² e 60 toneladas de equipamentos de som que superam eventos gigantes como Rock in Rio e Lollapalooza.

Como uma das marcas registradas da festa é o rodeio, os números também não deixariam de ser marcantes. Ao todo, 600 peões de todos os lugares do Brasil e até de outros países disputam as montarias em touro e em cavalos, além de provas, como team penning e três tambores – a única em que a penas mulheres participam.

As crianças também são bem-vindas em Barretos. O Rancho do Peãozinho, construído em uma área de 35.000 metros quadrados, foi especialmente desenvolvido para os pequenos. Repleto de verde, o espaço tem programação diária que inclui apresentações de dança, música e teatro, minifazenda, concurso de berrante, arena da ciência, entre outras atividades.

O evento também movimenta comércio e serviços, além dos setores hoteleiro e imobiliário das regiões de São José do Rio Preto (SP) e Ribeirão Preto (SP), a 100 quilômetros de distância. Isso porque, a taxa de ocupação nos hotéis da cidade chega a 100%, 15 dias antes do evento.

O rodeio deixou de ser parte apenas do lazer popular, que carregava um estigma de “atividade de caipira” e se tornou também um acontecimento urbano notável, autônomo e consagrador do peão de boiadeiro e dos domadores, transformando-se num evento cheio de atrativos, com lances espetaculares e milionários. E a Festa do Peão de Boiadeiros é a prova viva de que a tradição não se extinguiu.

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