Por Jose Ricardo Braga | Tradução: Lucas Veiga

 

Em que momento os brasileiros que residem nos Estados Unidos se vêem com medo e se perguntam “vou me adaptar”? Ouvimos de uma boa parte de nossos conterrâneos, recém-chegados ou com pouco tempo vivendo nos EUA, a queixa sobre o quanto eles sentem falta de casa, mas ao mesmo tempo eles afirmam que é impossível voltar e se readaptar às suas antigas vidas.

Brasileiros que se mudam para outros países relatam já estarem acostumados com a vida de “estrangeiro” e quão é difícil imaginar viver nas regiões tropicais da América Latina novamente. Aqui se incluem também jovens adultos que foram educados no exterior. Sim, talvez haja alguma coerência nessa forma de pensar, mas, me perdoe por dizer isso, voltar para casa não é tão difícil. Voltar e se readaptar ao local de onde viemos pode ser a melhor coisa para um indivíduo – especialmente se essa pessoa puder contribuir para o crescimento de seu país.

No tempo em que passamos vivendo no exterior, muitos de nós fomos treinados em algumas áreas, dominamos algumas habilidades e aumentamos nossos conhecimentos gerais. Muitos se tornam humanos melhores, seres com capacidade de influenciar e melhorar as coisas ao redor com pouco esforço. Um bom número de cidadãos brasileiros vivendo no exterior carrega com eles um amontoado de conhecimento e expertise. Estas são, por exemplo, as pessoas que deveriam estar voltando para suas casas para guiar seus países para frente, evoluir. O conhecimento que adquirimos fora é o que devemos guardar e aplicar quando e aonde for necessário.

Brasil sempre foi (e sempre será) bem diferente dos Estados Unidos. O EUA aperfeiçoou a democracia pelos últimos 225 anos enquanto que o Brasil lutou para conquistar e manter a democracia pelos últimos 100 anos. Os estilos de vida hoje dos dois países são também muitos diferentes. Muitos americanos vivem para atingir seus objetivos a longo prazo, enquanto que a maioria dos brasileiros gostam de vivem um dia por vez.

Os Estados Unidos hoje é o lar de mais de 1,1 milhão de brasileiros. Isso, infelizmente, serve para explicar a imagem do Brasil de muitos anos atrás: não apenas um país acostumado com corrupção e violência, mas um lugar onde milhões de habitantes sentem a urgência de deixar o país e recomeçar suas vidas em outro lugar. Mas o fato curioso aqui é que, muitos anos atrás, nos mudamos e nos adaptamos. Um bom número de brasileiros começou a se mudar para outros países e se mantiveram lá. Quando nos mudamos, descobrimos como nos misturar em diversos países da Europa, Ásia e América do Norte, mas sempre preservando nossa verdadeira essência brasileira.

A cultura brasileira é mesclada por influências de estrangeiros também. Mesmo antes de 1800, o Brasil teve imigrantes de Portugal e, pouco depois, pessoas do resto da Europa e Ásia. Excluindo as centenas de imigrantes portugueses que vieram com a família real para a antiga capital Rio de Janeiro, a maioria dos imigrantes foi trazida com a intenção de trabalhar na descoberta de minérios e também em benefício da agricultura, o que tradicionalmente tem sido o pilar da economia brasileira. Além do mais, o Brasil também teve influência africana trazida pelos escravos. A população brasileira como conhecemos são o resultado final do “caldeirão” que os Estados Unidos alegaram estar construindo.

Americanos falam há muitos anos sobre como o multiculturalismo eventualmente reforma a cultura norte americana ao longo dos anos, mas a realidade é que isso não é novidade no Brasil, pois nossos sobrenomes são espanhóis, italianos, japoneses, portugueses e a lista não para. Poucos são os brasileiros com sobrenomes de famílias nativas, isso se não tiver nenhum. Nossa aparência é única e modelada pela mistura de todos os tipos de pessoas de dentro e de fora do nosso país. Brasileiros podem parecer com indianos, coreanos, alemães, italianos: o povo brasileiro pode parecer com qualquer outro povo. Isso não significa que o brasileiro não tenha uma aparência própria, mas a combinação de outros povos é o que define esta nação.

Isso mostra que brasileiros tem se adaptado dentro do seu próprio país antes mesmo de 1800. Não estivemos lá sempre, nossas famílias não estiveram por lá sempre. Nossos próprios ancestrais foram um dia estrangeiros no país que hoje chamamos de casa, e nós parecemos termos nos adaptado muito bem, não é mesmo? É por isso que os brasileiros podem realmente voltar para casa. A dificuldade de lidar com a ideia de voltar tem sido a transformação psicológica que passamos quando mudamos para longe.

Durante os primeiros anos vivendo nos Estados Unidos, por exemplo, nos vemos como estranhos tentando se encaixar. Trabalhamos como maníacos para alimentar nossas famílias no Brasil. Vivemos uma vida dupla. Mas isso apenas dura até nós percebermos que devemos escolher apenas uma dessas vidas com o objetivo de simplesmente viver melhor, com qualidade. É aí que começamos a fazer menos ligações para casa, a sermos um pouco mais egoístas e tomar conta de nós mesmos. É aí que começamos a enviar menos dinheiro para nossos colegas brasileiros.

Eventualmente percebemos que podemos ter uma vida mais confortável, mas, para ter isso, devemos investir mais em nós mesmo. Então desenvolvemos um contra-argumento válido para confortar nosso desejo de ficar: talvez o motivo para não querermos voltar para casa é porque gostamos do conforto e da conveniência que a nova “vida americana” nos oferece.

A melhor qualidade de vida nos EUA é certamente uma força que nos faz querer ficar. É normal não querer voltar para o lugar que bateu tanto na nossa cara há 20 ou 25 anos e, também, nos sentimos mais seguros em ficar em um ambiente mais desenvolvido que forneça mais oportunidade mesmo durante o grande caos econômico desde a grande depressão. É muito mais fácil se identificar com lugares que nos trata melhor. Das nossas memórias passadas, nossa casa sempre nos deu menos espaço para nos desenvolvermos. Ela colou nossos pés no chão e nos impediu de até tentar escalar alguns degraus das divisões de classes.

Os Estados Unidos é um lugar completamente diferente (ou pelo menos, tem sido na maior parte). Tio Sam na verdade nos permite, pessoas de todas as raças e história, ter um novo começo e fazer dinheiro se trabalharmos duro, o que não é o caso de outros lugares, como o Brasil. Para aqueles sem um diploma, trabalhar nos EUA como encanador ou eletricista pode pagar tanto quanto alguém formado, se não bem mais. Obviamente, um diploma será útil para o resto de nossas vidas, mas trabalhar como assistente de encanador vai ajudar a pagar as contas e mais por um certo período de tempo.

As oportunidades que a economia brasileira oferece não são tão abundantes ainda, mas, constantemente, elas estão sendo aprimoradas. Como sabemos (e como ouvimos o tempo todo), a economia brasileira tem melhorado. Empregos estão sendo criados como nunca antes. Estrangeiros estão sendo injetados na economia todos os dias. Infraestrutura e educação estão finalmente ganhando melhorias. Mulheres tem melhores oportunidades. Fome e pobreza estão sendo vistos como vergonha do país e tratados pelo governo. A violência nas grandes cidades está finalmente incomodando os políticos. O Brasil está tratando de seus problemas e visando dias melhores para o futuro.

É claro que velhos hábitos não conseguiremos perder (ou apenas vai levar mais tempo). Hábitos que não parecem querer ir embora são, por exemplo, o time nacional de futebol em uma série de decepções ou as novelas diárias que insistem em diminuir os cérebros daqueles que as assistem, ou famílias ricas contratando empregadas por toda a semana impedindo que elas tenham a chance de ter suas próprias vidas. O Brasil continua bom como nos velhos tempos, mas desta vez está seguindo para dias melhores. Com toda a experiência e conhecimento que adquirimos vivendo no exterior, formamos uma força útil para a economia brasileira – especialmente os jovens adultos.

Essa são as pessoas mais inovadoras que podem revolucionar a velha forma de se gerir um negócio no Brasil. Mesmo com nossa economia evoluindo, nosso sistema político hoje é apenas um reflexo contemporâneo do que era na pós-ditadura: velhas ideias para resolver velhos problemas. Jovens que foram para faculdade no exterior vivenciaram diferentes formas de pensar.

Eles levam para o Brasil diferentes perspectivas e ideias universais que podem ser aplicadas para tentar resolver os recorrentes problemas do país. Isso não quer dizer que estudantes brasileiros fizeram faculdades no exterior são melhores, eles apenas estão mais bem preparados devido à experiência e oportunidades extras que tiveram estudando fora. O artigo “Brasil: sustentando o crescimento econômico” publicado pela Soul Brasil fala melhor sobre o sistema educacional subdesenvolvido no brasil. Quando comparados de perto, é evidente que as universidades norte-americanas estão produzindo melhores profissionais e estão mais bem preparadas que as brasileiras.

Então talvez a congelante temperatura de Nova York ou o clima úmido da Flórida tenham engolido nossas memórias das belezas tropicais do brasil. Ou talvez o decrescente valor do dólar é ainda bom para todos – desde que o Real pare de tentar alcançá-lo. Baseado nessas histórias, o Brasil tem nos dado muitas razões para correr de casa e nunca mais querer voltar. Começou com a ditadura, então foi para as destruições causadas por Fernando Collor e, finalmente, chegou a crescente violência e poucas oportunidades para o resto da população. Mas hoje os tempos estão diferentes.

O Brasil não é ainda uma superpotência completamente desenvolvida, e talvez leve algumas décadas para chegar lá, mas podemos ajudar nosso país a chegar lá mais rápido. O caso aqui é que precisamos fazer algum esforço. Não será bom se caminharmos para trás esperando com os braços cruzados por dias melhores. Voltar para trás irá requerer algum esforço individual.

Devemos aplicar os conhecimentos e habilidades que adquirimos no exterior para levar o país para frente. A única dor de cabeça aqui é que teremos que atualizar todos os documentos e se acostumar novamente com a excessiva burocracia. Além desse pequeno inconveniente, aproveite uma cerveja bem gelada no bar do Zé seguida de um churrasco de tardezinha.

 

*Jose Ricardo Braga de Aguilar é um cidadão duplo e natural de Minas Gerais, Brasil. Ele tem um diploma em negócios internacionais pela universidade de Bridgeport e em 2011 cursou seu MBA em economia internacional em Nova York. Pra entrar em contato: joseaguilar113_at_gmail.com

Copy Protected by Chetan's WP-Copyprotect.