Brasileiros em uma festa junina organizada pela comunidade brasileira na Califórnia. Foto: Claudia Passos

Imigrantes brasileiros que decidem residir no exterior formam comunidades locais quando se mudam e acabam por representar a cultura e a identidade brasileira na região em que vivem. Embora o governo brasileiro não tenha dados precisos sobre o número de imigrantes que vivem nos Estados Unidos, o Ministério das Relações Exteriores calcula que existam de 1,2 milhão a 1,4 milhão de brasileiros residentes no país atualmente.

Na Geórgia, por exemplo, a comunidade brasileira vinda de Goiás ainda reproduz as tradições do estado. Em Marietta, cidade na região metropolitana de Atlanta, onde vive boa parte dos brasileiros, há vários estabelecimentos comerciais com o nome Goianão. Em uma mesma quadra comercial é possível ver: Goianão Padaria, Goianão Supermercado e Goianão Restaurante.

Até uma comida bastante conhecida e apreciada no Brasil – especialmente na época de festas juninas – a pamonha é vendida nos restaurantes brasileiros como Brazilian tamal, uma comida feita com milho e muito comum no México e em países da América Central. Em Atlanta, a comunidade divulga nas redes sociais eventos com “pamonhada” para arrecadar fundos para igrejas e obras sociais. Por lá também há muitas igrejas evangélicas e uma comunidade católica atuante. “As igrejas têm um papel importantíssimo na acolhida aos imigrantes”, avalia o cônsul brasileiro em Atlanta, Hermano Telles Ribeiro.

Em diferentes esferas sociais, os brasileiros se tornam defensores de suas origens e da cultura do seu país. O norte-americano James Thomaz, 45 anos, mora ao lado da igreja onde a festa foi realizada e foi ao local para comer espetinho. “Eu gosto de como vocês fazem o barbecue [churrasco, em inglês]. Vim ano passado porque vi a festa e voltei para comer de novo”, contou.

A carioca Lucia Moraes Jennings chegou aos Estados Unidos em 1975 para fazer faculdade na Georgia. Ela conta que, na época, eram poucos os brasileiros no estado. Ela se casou com um norte-americano, mas desde o começo se identificava como brasileira e não abandonou sua identidade.

Em 1987, começou um trabalho para promover a cultura brasileira em Atlanta. “Me vestia de Carmem Miranda e ia fazer palestras em escolas. Mas eu tentava tirar o foco do estereótipo. Não gostava e não gosto quando associam o Brasil somente ao futebol, ao carnaval e à sensualidade da mulher, afirmou Lucia ao jornal brasileiro Agência Brasil.

Em 1996, ela resolveu mudar o foco da cultura para a economia. “O Brasil começou a se recuperar economicamente e decidimos trabalhar o aspecto econômico. Com isso, criamos a Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos do Sudeste”, explica Lucia que é executiva da Coca-Cola, empresa que tem sede em Atlanta.

A câmara funciona com voluntários que fazem a ponte entre empresas brasileiras e norte-americanas, identificando parcerias em potencial, abrindo canais de relacionamento e estabelecendo conexões. “Nosso papel é desmistificar e mostrar o potencial brasileiro”, acrescenta.

Lucia diz que nestes mais de 40 anos vivendo nos Estados Unidos não deixou sua alma brasileira morrer, ao contrário, fortaleceu a identidade. “Em parte me sinto embaixadora do Brasil”, diz ela que, em 2016, deu uma palestra para os imigrantes que recebem o Green Card (visto permanente de imigração) na Suprema Corte. “Para mim foi um grande reconhecimento do meu trabalho e de que levo comigo o exemplo de cidadania brasileira que quero mostrar.”

Do outro lado do mapa, no Nordeste norte-americano, outra brasileira também representa o Brasil promovendo cidadania. A jornalista e antropóloga Heloísa Galvão, de Ilha Grande, viajou para o país em 1988 para fazer mestrado em Boston e não voltou mais para o Brasil. Em 1995, ajudou a criar o grupo Mulheres Brasileiras em Boston, uma organização comunitária sem fins lucrativos que presta assistência à comunidade imigrante e também promove a cultura brasileira.

“Nosso primeiro objetivo é informar. Informação gera empoderamento. E se você sabe seus direitos você pode vencer o medo e não se deixar paralisar”, afirma Heloísa, acostumada a lidar com questões migratórias que a comunidade sem documentação enfrenta. Em setembro, o grupo promove o Festival da Independência, considerado um dos maiores festivais independentes de brasileiros nos Estados Unidos.