Por Kátia Moraes

O Super Bowl começou às três horas da tarde, enquanto eu pegava a 405 e saía na Sunset. Desci a tão famosa boulevard com as janelas escancaradas ouvindo um pagode na KPFK. Quase antes de chegar na praia viro na rua Los Leones e vou até o final. Pelo visto a rapaziada que gosta da natureza teve a mesma ideia. Não é pra menos, já que o domingão tá lindíssimo e o céu tá claro. Se fosse de manhã eu provavelmente estaria no meio de um nevoeiro muito do chato. Morar no lado oeste da cidade pode ser uma faca de dois gumes. O ar é mais limpo mas as nuvens ficam pairando até desaparecerem lá pro meio-dia. Praia e frio pra mim não combinam.

Hoje é um dia especial. Estou feliz porque anteontem fizeram uma passeata contra a guerra em Porto Alegre e apareceram umas 100.000 pessoas. Minha amiga Shabazz, filha do Malcom X me passou um e-mail dizendo que o Danny Glover estava lá para o Fórum Internacional. Interessante. Fico imaginando como estará o tempo no Rio e mais tarde fico sabendo das chuvaradas de verão. O fato é que caminhar em Los Angeles, especialmente nas montanhas na frente da praia, me lembra quando eu morava no Rio.

E cá estou eu, subindo a trilha estreita em busca da paisagem que adoro tanto: as praias de Venice, Santa Monica e Malibu vistas lá de cima são uma coisa maravilhosa. Sento numa pedra e fito o mar espelhado com barcos à vela aqui e acolá. A ilha de Catalina bem ali na minha frente. Vejo uma japonesa chegar com seu bonezinho e mochila. Ela desce do topo de uma montanha pra outra e para como se tivesse escolhido o lugar desejado. Tira o suéter, o chapéu, a mochila e senta olhando o marzão a sua frente. Depois de uns quinze minutos, ela tira um livro da mochila, cruza as pernas feito Buda e começa a ler enquanto a brisa lhe refresca o rosto.

Eu resolvo tirar minha bandana e me parabenizo por dessa vez não ter trazido um casaco comigo. Tá quente. Um dia gostoso de verão em janeiro. Isso me lembra o capítulo do livro do Michael Moore onde ele fala sobre a elevação da temperatura da Terra. Me lembra o tremor que senti uma semana antes do terremoto de 1994 enquanto caminhava no Will Rogers que fica aqui perto, e me lembra ainda quando o Lenine estava visitando o Sérgio Mendes na mesma época. Ele teve que chutar a porta do quarto pois o terremoto emperrou a dita cuja. Essas lembranças passam pela minha cabeça até que a paisagem verde e azul acalma minha mente.

Mas eu vim aqui mesmo é pra sorrir. E sorrio tanto que canto montanha abaixo até voltar pro carro. Durante a descida me lembro da última caminhada que fiz com minha amiga Fiona. Demos sorte também. O dia estava transparente. Subimos montanha acima em Pasadena e chegamos aonde existiu uma estrada de ferro no século XIX. Pudemos ver um hotel em ruínas construído no final daquele século também. Quando chegamos, entendemos porque tamanho trabalho para erguer uma construção num lugar tão isolado. É que de lá você tem uma vista de 180º da cidade de Los Angeles. Vimos o centro da cidade, Century City, algumas praias, a ilha de Catalina, etc. Foi a melhor vista da cidade dos anjos daqui do vale que já tinha visto. Se estava quente? Pra cacete!

Alguns anos atrás organizei uma caminhada e convidei uma senhora alemã que costumava liderar grupos do Sierra Club. Maya estava com 65 anos e tinha uma energia incrível. Nosso grupo de brasileiros se encontrou às 7 e meia da manhã na Laurel Canyon com Fryman em Studio City e ela impôs o ritmo do nosso passeio de cara. No meio das nove milhas minhas amigas brasileiras bufavam e pediam que ela diminuísse o passo. Mas a danada manteve o trote e as meninas chegaram no Lookout da Mulholland inteiras e felizes por terem ido até o final. Bem, tenho uma proposta. Se você gosta de caminhar como eu, que tal um passeio num domingo?

* Kátia Moraes é uma talentosa artista carioca que vive em Los Angeles desde 1990. A cantora, compositora e artista plástica foi uma colaboradora importante nos primeiros anos da Soul Brasil magazine. www.katiamoraes.com