Por Liza Vosbiagan (Tradução: Fabiano Fonesca)

Eu finalmente realizei um de meus sonhos este ano, levando meu afilhado Tamir para a Bahia. Lembro que quando ele tinha 9 anos, o ouvi cantarolar ao som da música de Gilberto Gil. À medida em que foi crescendo e se tornando um adolescente, eu me perguntava se ele gostaria dessas músicas tanto quanto eu. Comecei a lhe mostrar um pouco da cultura brasileira: matriculei Tamir nas aulas de capoeira de Mestre Amém (Capoeira Batuque), e ele aprendeu a cantar e a contar em português. Em minha casa, onde existe uma grande variedade de músicas brasileiras, ficava feliz em ver meu afilhado se identificando com Ilê Ayê, Djavan, Hermeto Pascoal, Milton Nascimento e Daniela Mercury.

Hoje, com 16 anos, ele toca num grupo de samba chamado “Alma da Batucada”. Uma banda, formada por um amigo da Capoeira e mais cinco outros membros, incluindo seu irmão de doze anos de idade. No começo eu achava que a música era só minha, mas agora eu vejo que È dele também.

O grande teste veio quando ele finalmente pode conhecer o Brasil, no melhor estilo Bahia. Dia e noite, ele assistia aos melhores grupos incluindo Afro-Blocos. Tamir jogou capoeira com crianças de três anos ate senhores de sessenta anos de idade. Tamir foi à praia com os Baianos que vendiam queijo coalho, tapioca e ate carangueijada. Ele viu todos esses tipos de comidas sendo vendidas na praia sem nem ter que se levantar de sua toalha. Os vendedores até nos jogavam água caso nós ficássemos com muito calor!

Sem contar que as barracas na praia tocavam música sem parar o dia inteiro. Tamir teve doses diárias de todos os tipos de experiências musicais, até mesmo enquanto sentava na frente do salão de beleza da minha amiga “Negra Jho”, no Pelourinho, onde ele viu pessoas tocando percussão em latas de lixo, cadeiras, plástico e outros objetos.

Quando chegou no Brasil, a primeira coisa que ele comeu foi o Abará, e em sua partida, a última, foi o Acarajé, ambos pratos típicos da Bahia. Sua bagagem estava lotada; tinham duas cuícas, um cavaquinho, um pandeiro, um tamborim, seis maletas e um berimbau. A VARIG foi ótima acomodando tudo isso para nós. Pouco antes da partida, ele teve a oportunidade de visitar um Pai de Santo para uma leitura e saber qual o seu orixá ou santo na religião do Candomblé.

Eu testemunhei meu afilhado se abrindo para a possibilidade de entender uma nova forma espiritual nunca antes experimentada por ele. Tamir recebeu um banho de folhas, que lhe fora derramado sobre sua cabeça deixando secar ao natural, sem o uso de toalha para deixar o cheiro das folhas brasileiras. Eu ainda me lembro da deliciosa fragrância quando o abracei.

Na hora de sua partida da Bahia, conversamos sobre sonho e realidade, mas eu o deixei alguns momentos sozinho para que ele pudesse meditar sobre suas experiências no Brasil. Nos despedimos e, pela primeira vez desde que ele era uma criança, eu disse a Tamir que eu o amava. E ele respondeu “eu te amo também”.

* Liza Vosbigian designer de joias norte-americana. Ela tem muitos amigos brasileiros no sul da Califórnia e, em especial, em Los Angeles, onde mora. Liza escreveu este artigo exclusivamente para a Soul Brasil em nossa edição número 6, de 2003.

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