Por Flavio Gondin

Enquanto você lê esse título, talvez venham à sua mente pensamentos sobre o poder das invocações místicas em contato com mundos sobrenaturais e todas as conseqüências disto. Você pode estar pensando em diferentes tipos de preces que existem em muitas culturas diferentes, e em como homens e mulheres em todo o mundo expressam sua esperança e suas crenças, seus medos, súplicas ou decisões, ao colocarem suas vozes em palavras especiais nas orações, cânticos, ou mesmo em um grito.

Então, sua imaginação voadora pode pousar em algum lugar das suas lembranças, de onde você possa ouvir a música terna da voz materna, e em seguida ouvir novamente o “urro bárbaro” de seu chefe hoje de manhã… (Perdoe-me, Whitman!) Que saudade! Você provavelmente estará certo ao pensar assim – mas, sem que perceba, já estará experimentando a magia que as palavras do título despertaram no mundo sensível da sua mente.

A palavra é som em seu primeiro suporte. Sabemos que o som é onda, uma vibração transmitida à atmosfera de uma forma que nossos ouvidos sejam capazes de perceber, e nossos cérebros de interpretar e criar sentidos, significados. Som é movimento em forma de onda. Muitas culturas pensam o som como um modelo do movimento eterno do Universo – como uma essência movente. Curiosamente, o impulso yang e o repouso yin do círculo do Tao – têm a mesma forma de uma onda. Costumamos perceber a realidade que nos cerca prioritariamente pelos sentidos da visão e do tato, enquanto o som, como um objeto invisível e intocável, aponta para uma outra ordenação da realidade: seu uso mágico reside exatamente como elemento de ligação entre os mundos material e espiritual. Eis o potencial mágico inerente das palavras. Portanto, quando falamos, as palavras que dizemos carregam mais do que seu simples significado.

Mesmo do ponto de vista desses significados, não há apenas aquilo que as palavras são em sua superfície. Tudo o que dizemos guarda uma “mensagem” em um nível mais profundo. Esta mensagem – chamada “estrutura profunda” pelos especialistas – é um pronunciamento, uma posição que tomamos em um debate travado em escala mais ampla na sociedade. As concepções, medos e anseios próprios de nossa sociedade e época estão sempre em nosso discurso, porque as palavras expressam o ambiente cultural na qual são ditas.

Poderia haver um mini-conto que dissesse: “Em algum lugar distante do Universo cintilante que se espalha em um sem número de estrelas, havia uma vez um planeta onde animais inteligentes criaram o conhecimento. Foi o minuto mais incrível da história do Universo – mas foi somente um minuto. O planeta esfriou, e os animais inteligentes morreram”. Palavras e concepções são apenas – e totalmente – humanas: assim, em lugar de um valor de “verdade absoluta” para as palavras, palavras são como “moedas” de troca de significados na nossa relação com os outros na sociedade, e cujo valor emerge desses relacionamentos. O quanto é importante então a escolha cuidadosa das palavras! Nossas palavras, ditas sem cuidado, podem ser palavras-pedras atiradas contra os outros, em lugar das talvez palavras-flores que queríamos mandar! Com as palavras, as guerras são começadas – com as palavras, podemos começar a paz.

O poder da nossa intenção colocada em palavras – a força de um sincero diálogo: eis a marca da verdadeira humanidade, nossa magia feita de palavras! Ou, nas palavras mágicas do poeta Thiago de Melo, em seus “Estatutos do Homem”:

Artigo V
Fica decretado que os homens estão livres do jugo da mentira. Nunca mais será preciso usar a couraça do silêncio nem a armadura de palavras. O homem se sentará à mesa com seu olhar limpo porque a verdade passará a ser servida antes da sobremesa.

Artigo Final
Fica proibido o uso da palavra liberdade, a qual será suprimida dos dicionários e do pântano enganoso das bocas. A partir deste instante a liberdade será algo vivo e transparente como um fogo ou um rio, e a sua morada será sempre o coração do homem.”

*Flavio Gondin é músico, programador, filósofo e tradutor pernambucano, e teve contribuição valiosa nos dois primeiros anos da Soul Brasil magazine. 

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