Por Kátia Moraes

No início de novembro ouvi dizer que meu amigo Daniel tinha pirado. Algumas pessoas o levaram para um hospital depois de ter chamado um médico para avaliar qual era o problema dele. Isso me fez pensar na melancolia que abate muitos brasileiros no fim do ano. Pensei na autobiografia de Gandhi e nos livros sobre budismo que li procurando achar um elo perdido que não acho mais na Igreja Católica. O certo é que a melancolia não é só por causa da mudança de estação.

É verão no Brasil e a idéia de família reunida no Natal e Ano Novo não é muito encantadora pra muita gente. E talvez menos atraente ainda pra quem está vivendo fora do seu país de origem. Eu acredito que somos todos cidadãos do mundo, mas que a psiqué da gente tem lembranças que nos fazem únicos. “A melancolia”, como diz o escritor William Styron, “é uma tristeza psíquica”.

Bati papo com as cantoras Sônia Santos e Ana Gazzola numa quinta-feira de novembro. Ana recorda que o Natal no Rio Grande do Sul sempre foi motivo de alegria. A mãe, super católica, organizava uma missa e um presépio vivo com as crianças. Enquanto ela descrevia eu pude visualizar a cena com meninas e meninos correndo prá todo lado. Depois que a Ana veio prá Los Angeles ela parou gradativamente de ir à igreja mas ainda continua rezando. E sempre se acalma quando a mãe lhe lembra que ela é protegida por seis anjos da guarda. Nesses últimos anos Ana gosta de ir a um templo budista para cantar o mantra “Nam myo ho ren ge kyo”. Ela diz que se sente leve e mais esperançosa fazendo isso.

Sônia cresceu no Rio de Janeiro e seu pai era espírita kardecista. Ele sempre fazia um discurso todo ano sobre como as pessoas bebiam demais no Natal e transformavam o nascimento de Jesus num carnaval. Aqui nos Estados Unidos ela não encontrou o bate papo e as explicações que o kardecismo lhe proporcionava. A maneira de preencher esse vazio é falando com a família no telefone. A conta do dito cujo é sempre alta, mas a sua alma fica confortada. Será que a hipocrisia das pessoas cresce junto com o nível da miséria?

Eu tendo a achar que é assim no mundo todo. A cantora baiana Renni Flores se distanciou do catolicismo quando notou essa dicotomia. Hoje em dia ela conversa com Deus e parece ter achado conforto nessa maneira de expressar sua espiritualidade. “Era horrível assistir as pessoas serem tão desumanas bem ali na saída da missa. Era como se tudo que tinha acabado de ser pregado fosse completamente apagado da cabeça dela”.

O presidente do Centro Cultural Brasil Brasil, Amén Santo, também nunca gostou dessa hipocrisia e não gosta do consumismo do Natal. Ele cresceu dentro do candomblé mas ia à missa “como qualquer outro brasileiro”. Ele nunca se sentiu à vontade olhando prás estátuas de Jesus crucificado. O pianista e compositor Rique Pantoja é cristão e em sua igreja não existem estátuas. Ele também cresceu numa família católica mas acha que a hipocrisia é inerente ao ser humano. Rezar faz parte do seu dia-a-dia e ele conversa com Deus a qualquer hora.

Alfredo Fulchignoni do Kingdom Broadcast Network foi criado numa família italiana católica mas desde 1992 é cristão evangélico. Ele não pode beber nem fumar e me disse que durante essa época do ano ele fica reflexivo. O baterista Sandro Feliciano sempre passa o Natal em São Paulo. Prá ele Natal é família. Ele costuma tocar numa igreja gospel que não tem estátuas mas possui um crucifixo. A presença da música nos serviços religiosos daqui o atraiu, já que na época não existia isso no Brasil.

Já o artista plástico Áureo Silva cresceu dentro de uma família radicalmente batista. Só largou a igreja quando de repente as festas da adolescência começaram a competir com a hora da missa. A pressão da mãe fez com que se rebelasse. Hoje em dia ele se acha uma pessoa espiritual e quando se sente desequilibrado conversa com o seu “guia”. A maioria dos brasileiros com quem conversei cresceram num ambiente católico e adoravam fazer parte do presépio vivo e do coro da igreja. Se acham seres espirituais. Dizem que tentam tratar os outros como gostariam de ser tratados. Gostam de conversar com Deus do seu próprio jeito e a qualquer hora e não gostam de ser pressionados à conversão.

A melancolia aparece quando existe algum tipo de saudade. Saudade da rabanada da mãe, do cafuné da avó, da bacalhoada da tia, da conversa fiada regada a vinho, do calor humano que não encontrou no país em que vive e outras coisas. E uma das razões da melancolia vem da certeza de que muitas outras famílias não ganharão nenhum presente e nem sequer terão um prato de comida. O Brasileiro é um ser altamente esperançoso. Em nossas preces, vamos incluir para que cada Brasileiro tenha pelo menos três refeições por dia e que em um futuro próximo o Brasil possa ser um pais mais justo socialmente e menos violento.

*Esse artigo foi originalmente escrito em 2003 pela cantora e compositora Katia Moraes. Katia fez parte de nosso time inicial de colaboradores e foi de suma importância nos primeiros anos da Soul Brasil com seus artigos e também traduções – www.katiamoraes.com