Por Lauro Pinotti

Um oriental, quase quinhentos anos antes de Cristo, percebeu a importância do desapego. Ele chegou à conclusão de que a pessoa deve viver no mundo, deve utilizar-se dele, mas não deve se apegar a ele. Em sua pureza iluminada, ele também concluiu que o problema básico da existência humana é o sofrimento. Esse sofrimento, no entanto, não é algo que vem de fora, mas sim, o reflexo direto de uma percepção limitada que a pessoa tem da realidade. Advém da adoção de uma visão defeituosa de mundo por parte dela e de suas programações erradas.

Não por coincidência, um outro oriental (dessa vez do Oriente Médio) disse tempos depois: “apenas quem se faz como uma criança pode entrar no reino dos céus”. As crianças não se prendem ao passado, nem se preocupam com o futuro. Vivem o presente e são autênticas em relação aquilo que sentem, até o dia em que a cultura as faz comer do “fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal”, enchendo-as de preconceitos e ansiedades e expulsando-as do Paraíso.

Contrário a isso, os ensinamentos de todos os Grandes Mestres da Luz existem para nos ajudar a transcender o nosso senso comum e egoísta. Assim, nós podemos atingir um senso de relativa satisfação para conosco e para com o mundo. Se o sofrimento é fruto da nossa percepção individual, podemos fazer algo para amadurecê-la através do autoconhecimento. “Projetistas fazem canais, arqueiros atiram flechas, artífices modelam o barro. Já o homem sábio modela-se a si mesmo”.

Foi isso o que disse aquele primeiro oriental, Buda Gautama, ao perceber que o homem comum se deixa facilmente dominar pela gula, pela luxúria, pelo orgulho, pela cobiça, pela ira, a avareza e a preguiça. Dominado por elas, volta-se para o mundo externo sempre de uma maneira agressiva e ansiosa, o que gera o sofrimento quase inevitável ao não ter os seus anseios realizados. A insatisfação é o resultado de todos os anseios ou desejos que não podem ser plenamente realizados. A maioria das pessoas é incapaz de aceitar o mundo tal como ele é. Deixando-se levar pelo desejo do “sempre agradável” e pela aversão ao “negativo e doloroso”.

Os desejos e anseios sempre criam uma estrutura mental instável, na qual o presente, em geral, nunca é satisfatório. Se os desejos não forem satisfeitos, a pessoa tende a lutar para mudar o presente ou agarra-se a um tempo passado. Se forem satisfeitos, por sua vez, a pessoa fica com medo das mudanças daí acarretadas, o que traz novas frustrações e insatisfações. Como tudo se transforma e passa, o desfrutar de uma realização tem a contrapartida de que sabemos que ela não será eterna. Como uma bola de neve, quanto mais intenso for o desejo, mais intensa será a insatisfação diante do fato de que tal realização não irá durar para sempre.Um oriental, quase quinhentos anos antes de Cristo, percebeu a importância do desapego. Ele chegou à conclusão de que a pessoa deve viver no mundo, deve utilizar-se dele, mas não deve se apegar a ele.

Em sua pureza iluminada, ele também concluiu que o problema básico da existência humana é o sofrimento. Esse sofrimento, no entanto, não é algo que vem de fora, mas sim, o reflexo direto de uma percepção limitada que a pessoa tem da realidade. Advém da adoção de uma visão defeituosa de mundo por parte dela e de suas programações erradas. Não por coincidência, um outro oriental (dessa vez do Oriente Médio) disse tempos depois: “apenas quem se faz como uma criança pode entrar no reino dos céus”. As crianças não se prendem ao passado, nem se preocupam com o futuro. Vivem o presente e são autênticas em relação aquilo que sentem, até o dia em que a cultura as faz comer do “fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal”, enchendo-as de preconceitos e ansiedades e expulsando-as do Paraíso.

O controle dos desejos e anseios, por sua vez, leva à extinção do sofrimento. Controlar o desejo não significa extinguir todos os desejos, mas sim, não estar amarrado ou controlado por eles, nem condicionar ou acreditar que a felicidade está atrelada à satisfação de determinados desejos. Os desejos são normais e necessários até certo ponto, pois eles têm a função primária de preservar a vida orgânica. Mas se todos os desejos e necessidades são imediatamente satisfeitos, é provável que passemos a um estado passivo e alienado de complacência. A aceitação, desse modo, refere-se a uma atitude tranqüila e calma de desfrute dos desejos realizados, sem que nos deixemos perturbar seriamente pelos inevitáveis períodos de insatisfação.

O “Caminho do Meio”, intuído e definido por Buda Gautama, parece ser uma das boas saídas para os sofrimentos. A maioria das pessoas busca o mais alto grau de satisfação dos sentidos… E nunca se dão por satisfeitas. Outras, ao contrário, percebem as limitações desta abordagem e tendem a ir ao outro prejudicial extremo: a mortificação. Nem um e nem o outro, no entanto, parece ser o caminho ideal. O ideal parece ser a moderação. Tudo de mal que ocorre no mundo nos dias de hoje, parece revelar que no coração do homem ser humano há algo muito errado. Se existem tantos produtos a abarrotar as nossas prateleiras de supermercado, por exemplo, é sinal claro de que no coração do homem ser humano existem tantos desejos quantos são esses produtos.

A máquina da propaganda e a indústria sabem muito bem disso… E é aí que elas tratam de formular as suas campanhas e seus novos produtos. Para conhecer o coração do ser humano atual, dessa maneira, basta darmos uma passada rápida e crítica pelo supermercado mais próximo. Ali, poderemos ver tantos e quantos venenos inúteis o homem ser humano produz para matar a si mesmo… E como o seu interior anda vazio.

O problema do homem atual, afinal, parece ser este: ele tem desejos demais e espiritualidade de menos! Não será essa a raiz de todos os problemas?

Lauro Pinotti é arquiteto, mestre em multimeios, escritor e pesquisador dos temas “espiritualidade” e “terapias holísticas”. 

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