Por Livia Caroline Neves

A origem do surf atribui-se aos habitantes da Ilha de Uros, no Peru, que há 450 anos desafiavam o mar em balsas feitas de totora, um tipo de palha. Os pescadores por sua vez, ficavam de pé em cima das balsas e direcionavam-as com os remos em direção à praia. Estas balsas são as ancestrais da famosa prancha, talhada em peroba por George Freeth e Duke Kahanamoku, nos primeiros anos do século 20, no Havaí.

Porém, a origem do surf traz sempre uma grande polêmica pois os havaianos desciam as ondas pelo simples e puro prazer de fazê-lo. Já os Peruanos, um modo de “voltar” do trabalho. Atualmente se dá a origem do esporte aos havaianos, no entanto, sempre quando podem os Peruanos tentam reivindicar esse direito. Várias histórias são contadas pelos velhos nativos do Havaí, entre as quais algumas dizem que seus ancestrais seriam descendentes dos Incas que aventuraram-se pelo Pacífico em suas enormes canoas. Lendas ou não, estas histórias fazem algum sentido.

Somente nos anos 50 que apareceu a poliuretana, material mais resistente e flexível, a qual tornou as pranchas mais ágeis e rápidas. A partir daí a evolução do surf em conjunto com as pranchas fabricadas deram um tremendo salto até os dias atuais. As inovações tecnológicas aprimoraram os materiais usados e as técnicas de shapear. O primeiro torneio internacional ocorreu em 1953 no Havaí, a capital do surf. Atualmente, existe um circuito Mundial de Surf e está dividido em duas divisões: WCT, 1ª divisão que competem os melhores; e WQS, 2ª divisão na qual a galera se mata para entrar na primeira divisão. Recentemente Duke Kahanamoku foi apontado pela revista americana Surfer como o surfista do século. Merecido, pois foi ele quem introduziu o surf nos Estados Unidos e Austrália, além de ajudar a preservá-lo. Duke é considerado como “o pai do surf moderno”.

O Surf Brasileiro

Mas falando do nosso surf, dizem que os primeiros praticantes no Brasil teria surgido em Santos, na década de 30. Quem de fato saberá? Já se passaram tantos anos que é praticamente impossível afirmar com certeza quem foi o pioneiro. Afirma-se que Osmar Gonçalvez, Silvio Malzoni e João Roberto Suplicy Haffers, o Juá, teriam sido os primeiros surfistas Brasileiros. Mais precisamente no ano de 1938, no canal 3 em Santos. Segundo Osmar, seu pai teria lhe dado uma revista de mecânica, a norte americana “Popular Mechanics”, e de lá, os rapazes teriam retirado o projeto de construção de uma legítima tábua havaiana 1.3. Silvio, logo desistiu da brincadeira. Osmar e Juá, continuaram a surfar por alguns anos, divertindo-se e claro, impressioando a mulherada! Anos mais tarde, o incansável Diniz Iozzi, o Pardal, encontrou um novo protagonista desta saga. Thomas Rittscher, um americano naturalizado brasileiro, hoje com 85 anos, afirmava categoricamente que teria sido ele a pedra fundamental do surf no Brasil. Isso teria acontecido emtre os anos de 1934 e 1936.

Osmar, infelizmente já nos deixou. E pelo fato de não estar presente para reivindicar seu pioneirismo, a maneira mais elegante é aceitarmos que Osmar, Thomas, Jua e Silvio fizeram parte do mesmo clã ou núcleo. Em Santos, na década de 30, tiveram o privilégio de se divertir, de curtir a juventude de uma forma saudável e vivaz. Entretanto, todo este pioneirismo não chegou a produzir uma cultura surf. A semente tinha uma boa intenção, mas não chegou a germinar. O surf como cultura, como modelo de vida, nasceu no Rio de Janeiro! Foi a praia do Arpoardor no Rio de Janeiro, que realmente pode ser considerado como o berço do surf Brasileiro. A princípio, em meados da década de 40, se pegavam as ondas somente ajoelhado ou deitado (no estilo bodyboard) em pequenas pranchinhas de madeira. Depois vieram novas pessoas, novas idéias e surgiram pranchas feitas de madeira e sem quilhas, as chamadas “portas de Igreja”. Talvez o primeiro surfista a ficar em pé sobre uma prancha em águas cariocas, tenha sido o mitológico Paulo Preguiça. Paulo, juntamente com seus amigos Jorge Paulo Lehman e Irencyr Beltrão, divertiram-se muito, usando toscas tábuas de madeira nas ondas do arpoador nos anos 50 ou mais precisamente 55-56.

Um outro grupo de aficionados pelo mar, vez por outra também experimentava as sensações do surf. Eram os mergulhadores praticantes de caça submarina, Bruno Hermanny, George Grande, Domingos Castelo Branco, e Rubens Torres. Fora essas duas turmas cariocas, existe ainda a lenda de que já em 1947, Luis Carlos Vital teria ficado em pé em cima de uma enorme prancha de madeira oca apelidada de DC-4. Um enorme avião comercial da época. Não existem registros oficiais deste fato. Logo, este é mais um episódio que entra no rol das probabilidades, dos contos e das lendas de nossa tribo.

Neste período do surf brasileiro, qualquer coisa que flutuasse poderia ser utilizada como prancha. Era comum o uso de tábuas de madeira e de pés de pato, usados para compensar a falta de flutuabilidade. Entretanto, por volta de 1957/58, uma terceira turma de surf se formava no Rio. Composta pelo já citado Irencyr Beltrão, Arduíno Colassanti e Múcio Palma. Foi nesta época que Irencyr encontrou um marceneiro na ilha do governador, que viria a ser, talvez, nosso primeiro shaper de renome. Seu nome era Moacyr, e sua habilidade para construir pranchas de surf feitas de madeira e com o bico envergado, logo ficou famosa nas praias do Rio de Janeiro. O movimento surfístico carioca começava a se formar uma vez que mais pessoas tinham acesso a materiais com um mínimo de qualidade. Posteriormente, Irencyr e seu irmão Ciro Beltrão, fundaram sua própria fábrica de madeirites em Jacarepaguá. Talvez a primeira fábrica de pranchas de surf do Brasil.

No início não era só surf, era uma relação com o mar: mergulho, caça submarina, saltar das pedras, etc. Certo dia era para ter um campeonato de caça submarina, mas como o mar amanheceu ressacado, resolveram aproveitar aquelas ondas e realizar um campeonato de surf. Surgiu assim o primeiro campeonato de surf no país e que teve como prêmio um churrasco na praia para o vencedor e seus amigos. Chegaram os anos 60, e o surf começava uma realística evolução. Surgiram então as primeiras pranchas de fibra de vidro. Um sucesso, pois eram muito mais leves e rápidas. Os primeiros campeonatos oficiais passam a existir, embalados ao som dos Beatles, Beach Boys, Elvis e Chuck Berry. Muitos participavam, ocorrendo inclusive campeonatos femininos.

O estilo de vestir, dançar, pensar e falar nesses anos era ditado pelos surfistas. As turmas mais descontraídas e divertidas se encontravam no Arpoador. As meninas não resistiam aos ombros largos, cabelos longos, carros conversíveis e jeeps coloridos e cheios de pranchões tocando Beatles no rádio. O surf era moda! E teve seu primeiro reconhecimento oficial pelas autoridades com a doação de uma área exclusiva para a prática do esporte na praia do Arpoador. Com isso a polícia foi obrigada a parar com a apreensão de pranchas, pois para eles surfar era errado, era proibido. Com isso muitas histórias surgiram sobre as perseguições, remadas heróicas para alto-mar e fugas da polícia militar e do exército.

A evolução do surf no Brasil continuou, contagiando cada vez mais a pessoas. Nasceram novas histórias, lembranças de dias perfeitos, descobertas de novos picos afora pelo Brasil. A junção de sonhos com atitudes fizeram e ainda hoje fazem, inclusive com muito mais intensidade, o Brasil um país do surf! Surfar é “dropar” sentindo o vento terral no rosto, a energia cósmica da onda levitando o corpo, fazer a alma e o espírito sentirem o sopro divino da criação dentro de um tubo de água.

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