Por Albérico Manoel

Desde a Pré-história o homem vem criando sua moda. O inconsciente humano discerne o bom do ruim e orienta a sua sobrevivência. É como se fosse uma forma de se distinguir de seus iguais nos aspectos sociais, culturais, religiosos, estéticos e até mesmo como indivíduo, o ser individual pensante.

No mundo contemporâneo, as culturas em todo o mundo sofrem influência da mídia e dos meios de comunicação que é o resultado de um complexo de interligações e conexões mundiais. A moda se massifica e torna-se popular para os públicos transformando-se numa forma de expressão, supervalorizando o individuo, diferenciando-o dos demais, e estabelecendo hierarquias em grupos étnicos e em suas ideologias.

A forma como as vestimentas têm sido utilizadas ao longo dos tempos passou a fazer parte integral do ser humano. O mundo contemporâneo cada vez mais exige perfis pré-prontos para o seu consumo. Independentemente do nível social, tudo é determinado pelas tendências.

Se o vermelho está em alta, todas as lojas vão utilizar suas cores para vender. A cor será direcionada para o público com poder aquisitivo alto, médio ou baixo mesmo que tenham outras cores e outros cortes. Uma exigência da sociedade ou mero gosto pessoal? Talvez, mas, muitas vezes sem que tenhamos uma consciência sobre a influência da moda em nossas vidas, nos vemos absolutamente envolvidos e vítimas ao mesmo tempo.

Hoje, o processo ditatorial da moda quase por completo nos molda ao consumo de seus produtos e nos rendemos a eles com seu marketing, sua propaganda, sua ideologia do homogêneo ou idealizado na mente das pessoas que os fazem. Alguns resistem, outros não. Os que seguem o regime, as tendências, parecem seres uniformizados com corpos perfeitos, algumas esquálidas, outros musculosos com visual moderno e arrojado tentando se diferenciar, mas, em sua maioria, quase sempre iguais.

O mundo atual valoriza o excesso da beleza, o estético e o que é considerado belo, contrapondo os valores éticos e morais e de respeito para com o outro. Os que não se enquadram se separam em tribos ou são marginalizados pelos grupos que pregam a ditadura do que é considerado belo.

Atualmente, sem querer, sofremos toda forma de imposição da indústria, desde as cores que usaremos no outono/inverno ou primavera/verão, até o formato do bico do sapato. A produção em massa só nos oferece nas prateleiras, cabides e vitrines o que é tendência, o que está na moda. Inexiste uma segunda opção.

Esta prática reflete o grau de influência a qual somos submetidos assim como pelos nossos desejos mais secretos, desde a possibilidade de concretizar fantasias, despertar sensualidade, ostentar ou mesmo querer passar despercebido ou ate mesmo se vestir para o outro. A moda faz com que a nossa individualidade fique aparente. Ela nos identifica, enfim nos torna indivíduos contextualizados no mundo em que vivemos.

A moda é significativa e está enraizada na vida da grande maioria da população mundial e, também, deixou de ser sinônimo de futilidade e improvisação há muito tempo, profissionalizou-se sendo responsável por uma grande movimentação econômica e geração de divisas.  A contradição no século XXI, o século da informação, é em virtude de que tudo acontece ontem. Você precisa ser o melhor, o mais competente, o mais capaz, o mais tudo. Às vezes, nem sendo a própria pessoa.

O grande acontecimento é que as pessoas cada vez mais estão se tornando personagens de si mesmos – olhe o reality show do Big Brother, que é sucesso de audiência – em razão de um modelo ideal de beleza, aceitação e sucesso entre seus pares. Atualmente, observa-se que todos estão em busca de algo, sem saber o que realmente quer encontrar. Seria uma ação intencional de seus realizadores? Uma espécie de experimento social para ver os valores e o que as pessoas pensam sobre as outras e como as outras as veem?

Tudo acaba virando modismo. Como a pessoa se veste, como o corpo é maravilhoso e assim por diante. Os espelhos (personagens criados pelas pessoas) estão refletidos numa concepção existencialista do ser humano, o ser único, o ser individual que olha para si mesmo buscando o inexistente, o que não se sabe. O que realmente importa para as pessoas é ser autêntico, pois um dia o personagem perde sua identidade e o mundo real com suas contradições e hipocrisia diz “nós queríamos você mesmo e não seu personagem”.

Assim, a moda acaba ditando regras de convivências, posturas e ideologias entre as pessoas. A moda dita a maneira como devemos nos portar, vestir, conseguir as coisas por se destacar melhor, como ter uma aparência melhor que a outra, como conseguir um corpo perfeito, enfim, o ideal de beleza e elegância perseguido por todos, para um todo, para o consumo, para ser feliz.

Essa falsa felicidade consumida por uma coisa que não tem preço, a liberdade. Por isso, a moda é passageiro, mas atitude e personalidade são o cotidiano, o real em razão de uma indústria poderosa que movimenta milhões de dinheiro e pessoas a sua ideologia e conceito de beleza ditado para todos que assimila esse ideal do que é belo e perfeito.

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